quinta-feira, 11 de novembro de 2010

QUANDO A CHUVA CHEGA


Amanhã, uma quarta-feira dia 16, repórteres de suéter no estúdio profetizarão que a frente fria está a caminho de nós e por isso o tempo será ruim por aqui e bom acolá....Se a chuva chover é melhor que eles comecem a nadar ou afundarão como uma pedra de lastro.

Quando a chuva chega, eles correm e escondem suas cabeças, parece que vão morrer por causa disso. São só umas gotas, mas papéis com escritos outrora importantes, bolsas e guarda-chuvas protegem as faces da água fácil. E quando novamente, depois da trégua, as nuvens choram, tiram eles dos armários seus casacos, se fecham em casa e em si bemol.

Procuram desesperadamente abrigo embaixo de uma mangueira, mas em 5 minutos a mangueira também chove, os seus guarda-chuvas já viraram ao avesso, mas marquises há.
Eu e você não nos importamos muito, não é mesmo? Pode até nevar, o que por aqui só na próxima era glacial. Estaremos lá a “...ouvir a água escorrer, lavando o tédio dos telhados que se sentem envelhecer..” como diria o Bandeira.

Por mim pode chover, eu deixo... ficarei por aqui mesmo, dançarei à melodia esperando que o sol certo seque as poças que meus passos criaram. Eu que sou alérgico agradeço. A poluição dorme e meus alvéolos respiram um ar com cheiro de terra e flores. “O ar fica mole”: lembra-me Bandeira escrevendo lá de Pasárgada, de mãos dadas com a Estrela da Manhã.

Depois que os repórteres anunciarem entre sorrisos o tempo “bom” e tudo clarear, seu rosto claro refletirá o sol e aí, enxuto aos vinte e tantos, te mostrarei que tanto faz: o clima sempre será bom para e entre nós.

São 17, a pele seca, o chuvisco acaba, eles descansam na sombra e tomam limonada. Pensam que dessa forma a vitamina os protegerá. Terríveis doenças a chuva trouxe! Somente quando no oriente surge a luz, as peles se desnudam sem proteção, permanecem, porém, as almas em si e na sombra.

Onde e quando eles aprenderam a evitar a chuva e o vento? Quando crianças, na tempestade, pulavam no quintal e logo depois tomavam banho “de sabão”. Chover era festa. Talvez propagandas de efervescentes tenham ensinado que chuva é ruim, igual a manga com leite.

Quanto ao sol, bem ... no sol já perdi varias camadas e à minha epiderme peço perdão. Agora prefiro final de tarde na praia a me ungir no ritual moderno e patético. Mas crianças,.... usem protetor solar pelamordeDeus! E a despeito de vossas mães que merecem respeito desmedido, façam-se surdos seus ouvidos e acreditem: Chuva é bom, e melhor ainda é tomar sorvete depois com você menina. Olhos e cabelos molhados sorrindo para mim.

Julio Lins, Salvador, 16/12/2003.

Citações e referências de : “Rain” (Lennon/McCartney), “Enquanto a chuva cai” (Manuel Bandeira) e “Times they are a’changing” (Bob Dylan).

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

ATÉ O FIM


Tenho nas minhas lembranças pessoais, pessoas. Alguns eu conheci, mas não eram tão próximos a ponto de chorar sua partida. Outros eu chorei.

Quando lembro de minha avó, monto aquele presépio na mente. Suas figuras desproporcionais chamavam-me atenção... Menino Jesus enorme frente aos pais... ainda não me acostumara à intenção do artista ao destacar o que importa. Nascia o menino todo ano, menos no ano que ela morreu. Não cumpri a promessa de levar adiante a tradição. Culpa e saudade.

Já adulto na idade, estava longe no exterior, mas no dia da morte do pai de Chico senti a dor próxima do amigo de longa data. Essa inexplicável dor da perda, do nunca mais ver, do nunca mais poder dizer algo, motiva-nos a agir. Por nunca estarmos preparados, cabe a nós que o eu-te-amo não dito seja dito.

É por isso, sem bater na madeira 3 vezes, que digo a todos: é bom conhecê-los e amá-los nas imperfeições, nas minhas imperfeições. Amanhã pode ser meu último dia de sol e nem tive tempo de abraçá-los como queria, nem vocês amigos ou, ao menos, a mulher que amo. Coragem somente a de revestir de sentimentos palavras avulsas, desconexas e soprá-las ao vento sem medo que cheguem ao seu destino.

Eu bem que gostaria de parar bem aqui neste parágrafo. Falar de morte é difícil, não me aventuro na ironia ou comicidade. O mesmo se dá quando faço música... se começo num tom menor a melodia expressa uma solenidade e um quê de tristeza inexplicáveis e até o fim permanece sem querer mudar... ganha vida a criação.

Quando dizemos morte tememos o inexplicável ou a dor da última hora, ou pior a saudade dos que ficam. Somos apegados à carne. Há casos em que a dor física é grande e dizemos: “acabou o sofrimento, parou de sofrer...” como se a vida só valesse a pena sem dor. É claro, eu odeio dor... às vezes tomo uma overdose de Coca–Cola ou café para dor de cabeça.... mas só quero perguntar o seguinte: se não sentíssemos dor na última hora, desejaríamos morrer?

Sonhamos com uma morte sem dor para nós e para os que amamos, mas políticos, porcos, ladrões, assassinos, prostitutas, galinhas e bois que morram dolorosamente. Pouco nos importamos, contanto que não sujemos de sangue nossos quintais.

Há, no entanto morte em vida. Morte do não amor, do orgulho e da indiferença. Isso que aprendemos como virtudes nas escolas e escolhas do dia a dia, mas seus frutos são solidão, ódio e violência.

Ah! Como me sinto velho. Quero voltar a ser menino e por ter memória curta nada temer, nem a morte nem a dor. Saudade de criança também é assim: chora um pouco, mas depois já se “enturma” de novo. Quero te dar um beijo menina e dormir... quero montar o presépio todo ano, ter pena da galinha assassinada no quintal, mas almoçar resignado mesmo assim. Quero melodias infantis em tons maiores, que nem uma foto 3x4 sequer consiga me fazer vestir a máscara da sisudez, e como toda criança pensar que somos e estaremos eternamente aqui.

Julio Lins Salvador , 22 de novembro de 2003.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

CASE DE SUCESSO



- Fitinha é apenas um real, ói!
- Quanto é?
- Um real, doutor!
- Garantida?
- É rasgar e alcançar o pedido.

Terra das crendices e da fé nas coisas do divino, materializadas em símbolos sincréticos, fruto da história e das origens culturais. Salvador das comidas com dendê. Salvador do mercado musical auto-suficiente, da imutabilidade e uniformidade do pensamento político (pelo menos assim revela-nos os sufrágios), mas principalmente da “Fita do Senhor do Bomfim”. Por causa dela o Baiano é identificável em qualquer lugar do mundo. Está lá no pulso chamativa, gritando orgulhosamente a todos com seu colorido: “Eu sou da Bahia, de São Salvador”.

Mas a industrialização também chega a essa terra mágica e, como o costume nativo, com décadas de atraso, finalmente instalou-se por aqui a empresa de “Fitinhas”. Daquelas com maquinário moderno e alta produtividade destinada a atender esse mercado promissor com produtos de uma melhor qualidade. E o melhor de tudo, chegou sem precisar de vinte anos de isenção de impostos, tempo hábil para a maior empresa automobilística do mundo equilibrar seus balanços.

Uma pesquisa de mercado séria, (e por que não seria?) indicou que o mundo demandará esse produto de uma cultura sui-generis a taxas crescentes nos próximos anos.

Em breve um bilhão de chineses além do broche de Mao serão obrigados pelo governo a fazer seus pedidos baseados nessa fé. Em algum museu de Milão será exposto como obra prima pós-moderna bem ao lado da garrafa da Coca-Cola. Árabes homens não usarão, mas cada barril de petróleo trará consigo uma fita. Que potencial!

Nos retrovisores e placas dos automóveis dos Norte Americanos, determinará a queda da taxa de mortalidade no trânsito e a conseqüente falência das seguradoras. No Brasil só os Pernambucanos se recusarão a usar. Têm a suas próprias tradições e não se deixarão invadir com facilidade.

Segundo a mesma pesquisa, depois de um ano já haveria o retorno do capital e a filial de Tóquio seria viável. Um ano se passou.... e a empresa apresenta prejuízos astronômicos. Mas o que aconteceu? Por que as vendas não aumentaram?

Bem, conforme análise posterior verificou-se que o maior erro foi... prestem atenção: a ótima qualidade do produto!

- Mas espere aí!
Alguém grita da platéia.

- Como é possível? A qualidade do produto não é fator essencial para a aceitabilidade no mercado mundial?
Admirou-se o estudante de pós-graduação de Marketing com ênfase em Marketing...

A resposta é, caro aluno (já tomei ares de professor): seria se fosse num mercado de bens duráveis. Acontece que os empresários paulistas investiram sem conhecer a fundo o ritual da “Fitinha”, nem ao menos a usavam eles próprios. Já imaginou um dirigente da Coca-Cola não beber do caldo escuro?

É sabido que ao fazer o pedido a pessoa tem que amarrar no pulso e torcer para que o desgaste natural rasgue o símbolo o mais rápido possível. Muitos chegam a ir à praia todos os dias para que esse processo se acelere. E essa fita de qualidade internacional não rasgava nunca! Os pedidos foram se acumulando o que cientificamente provocou a ira dos deuses que então levaram a empresa a beirar a falência. Esse foi inclusive o motivo de muitos prêmios da Loteria acumulados no último ano. Ninguém acreditava mais.

Percebendo o desastre causado pela falta de planejamento estratégico, tornou-se a produção o que deveria ter sido... Contrataram Wallace peito-de-pombo, artesão e filho-de-santo que logo aplicou seus conhecimentos adquiridos durante anos à linha. Lenta e manual a produção prosseguiu e o material de baixa qualidade com garantia de desgaste rápido e seguro agora atende à exigente demanda de pedidos impossíveis. Resultado. Sucesso absoluto, desejos atendidos, felicidade irrestrita...


Julio Lins, Salvador, 25 de outubro de 2003

sexta-feira, 30 de abril de 2010

QUESTIONÁRIO


Usarei o vosso tempo amigos e que vossas caixas de correio sejam “todas ouvidos”. Não se espantem não, isso é parte do exercício de existir...parei um momento em frente ao espelho e encontrando Alice e o coelho branco, olhando para mim com ar inquisitório, resolvi abrir meu coração entre a sístole e diástole:

Estou aprendendo a escrever com clareza e objetividade sem, no entanto querer ser entendido. Aproximo-me dos humildes de coração e me afasto dos soberbos. Vivemos num mundo de soberbos. Respeito, mas me sinto muitas vezes desrespeitado, porém não serei perfeito nem daqui a mil anos... além disso, já não existirei mais e, da mesma forma, nenhum de vocês.
Sou cooperador, movido a idéias e ideais, troco ouro por paz, mas no momento preciso de mais ouro. Sou leal ao amor e escravo da responsabilidade... a música está em mim como aquele sabiá cantando na mangueira.

Acho tudo que seja repetitivo, sem sentido...para isso existem computadores. Muitos preferem o trabalho, outros não tem escolha, mas eu apenas ser útil e transformar o mundo ao meu redor.
Sonho com um mundo menor, de aldeia de vida de cidade de interior com TV a cabo, Internet e viagens a passeio todo final de semana para a capital. Gosto de escrever. Gosto dessa música que ouço agora.

Pessoas sorrindo o sorriso inocente quero ao meu lado. Que me contem o motivo da graça e me façam sorrir também. Acredito que o homem é mais que um. São dois ou mil, e mil vozes alegres acordam a madrugada, criança que dorme e sonha.

Para os psicólogos de plantão digo apenas que há muito mais entre minha mente e alma do que vossa vã filosofia possa estudar. Saibam que essas simples palavras jamais conseguirão conter tudo o que penso e sinto. Sinto muito.

Tenho um-metro-e-setenta-e-quatro, peso sessenta e cinco quilos, minhas unhas crescem um centímetro por ano, meu cabelo trinta e três, tenho vinte e nove e minh’alma dezesseis. As distâncias entre eu e você só meço em anos-luz e a luz dos teus olhos menina, é o sol em torno do qual giro em órbita elíptica.

Se minhas frases são quebradas, que se pode dizer sobre meus períodos? Quando mudo de assunto continuo falando o mesmo, é como dizer eu te amo... cada vez soa diferente e por essa razão digo muitas vezes só para testar diversos tons.

Respondi as suas dúvidas? Mais alguma coisa em que possa ajudar a desvendar-me? Bem, you know my name, look up the number. Estarei aqui se precisar e se preciso for serei preciso nas respostas...

Mas por hoje o que mais quiser saber, a resposta não lhe darei. Ouça o Trenzinho Caipira, Sgt. Pepper’s e o Álbum Branco, as tintas de Dali, Magrit e Monet , coma um caranguejo na Atalaia e um abará no Farol, depois de tudo: o que sou será sabidamente a soma do sol, do sol com sétima e do sal.

Julio Lins - Salvador, 27 de setembro de 2003.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

ORGULHO DO ASFALTO DA MINHA TERRA.




Cidade estranha essa de odores mil! Das Sete Portas que serviam de entrada até o Farol da Barra, do subúrbio ferroviário até o engarrafamento do Iguatemi tudo na mesma. A cidade que vive de modismos musicais e usufrui a liberdade tutelada pelo poder público é a que vivo ou, ao menos, sobrevivo. Pairam sobre ela, observando-a inerte, muitas idéias e ideais dos poucos heróis resistentes à louvação dos reis eternizados nos palácios.

Logo quando cheguei, tinha sete anos, não sabia o idioma local e confesso que ainda não sei. Era errado falar “tia” logo me impuseram a “tchia” deles. Eu acabei ficando com minha tia mesmo, aquela que mora em Aracaju na Nova Saneamento e é mãe de meu primo mais chegado.

O problema é que Salvador não faz parte de lugar nenhum, só dos noticiários e propagandas filmadas em película (e como são caras!). É ilha cercada de culturas por todos os lados.

Já me afirmaram: não é Nordeste. De Feira de Santana pra lá é Nordeste dizem os mais orgulhosos. Tampouco faz parte do Sudeste...Bem que eles queriam, mas os índices de desenvolvimento social e econômico, digo os reais, os que vemos dia a dia, não se atreveriam a tanto.

Nesse lugar mágico que, no entanto admite (ainda que reticente) fazer parte do Brasil juntamente com o Rio de Janeiro, surgem gênios como em qualquer lugar do mundo e estou entre seus admiradores. Porém venho constatando a sua proporção rarear e pior, os poucos que restam vão logo que podem para outras bandas na busca dos holofotes televisivos. De lá de longe não param de falar daqui, mas voltar que é bom só para o camarote de carnaval.

Então é melhor me acostumar...vivo e sobrevivo em Salvador. No entanto conhecendo outras cidades como eu conheço, de andar a pé, me deixa um pouco saudoso. Fico esperançoso que o Ilustríssimo Prefeito copie as soluções nelas encontradas, pois querer ser sui-generis em tudo é burrice e prepotência.

Por isso, caro soteropolitano, quero as árvores de Boston e Itabuna e o asfalto pretinho de São Paulo, Aracaju, Boston e Nova Iorque. É pra isso que pago os impostos não quero que iluminem fontes nem pintem favelas. Digo novamente: Senhor Prefeito, quero asfalto do bom e árvores verdes e cheias de folhas. Afinal o que Vossa Excelência economiza no orçamento, com educação e saneamento básico, bem que poderia ser aplicado no que vos rogo.

Por falar em árvores: o que não vai faltar é adubo. A proporção per-capita de cachorros, sejam eles irritantes, amedrontadores ou simplesmente babões, é maior que na França (pelo menos aqui no prédio).

As árvores crescerão para o alto e bem verdes e com muitas folhas estimuladas pelos nutrientes das rações caninas. Basta só, e para isso eu peço a compreensão de todos, o bom costume de depositar seus dejetos nos canteiros. Quando falo dos seus dejetos me refiro aos cães, o que já está claro para a maioria dos leitores.


Sei “com certeza” que os habitantes desta incrível porção de terra não aprovarão essas medidas afinal árvores “sujam” com suas folhas os cimentos cinzas e ásperos. Mas pelo menos, e isso eu exijo, um asfalto bom que a chuva não leve embora. As calçadas são dos animais e de seus detritos, tenho que andar no asfalto, por isso peço um de boa qualidade....disso não abro mão.

Para tanto recomendo ao Ilustríssississimo Prefeito da Cidade de Salvador seja ele quem for, pois todos têm a mesma cara, uma visita aos asfaltos de Boston. Pode até, se quiser, fazer umas compras no Prudencial ou conhecer Harvard (que fica em Cambridge), mas no caminho, faça isso por mim, observe o asfalto. Lá pode chover, nevar, cair meteoro e ele permanecerá impávido: não há buracos ondulações, desníveis ou a sua completa inexistência.

Senhor prefeito... os seus colegas de São Paulo e Aracaju já foram lá, fizeram suas comprinhas mas não esqueceram de perguntar a fórmula do asfalto bom e bonito guardada a sete senhas. Lembre-se a Administração passada já é passado há muitos anos, não agüento mais desculpas, estou te pagando para fazer o serviço e espero respostas.

Julio Lins, Salvador, 12 de julho de 2003.

sábado, 19 de dezembro de 2009

NO REINO DAS ÁGUAS



No Reino das águas dançavam alegremente ao sabor das correntes e marés, Branco e Dourado...

Assim estava disposto a começar se fosse um conto infantil. Descreveria o mundo encantado, borbulhante, porém inabitável para alguns de nós seres-humanos mamíferos de nascença. Digo isso porque entre nós se escondem amebas e protozoários muitíssimo disfarçados e bem vestidos.

O problema é que este não é um conto infantil, portanto digo apenas que no aquário da minha casa há dois peixes e isso me inquieta pela responsabilidade implícita. Na verdade a vizinha do 303 viajou e pediu para que cuidássemos deles até a sua volta “não dá trabalho nenhum” afirmou convicta. Seria eu capaz de cuidar de dois seres indefesos?

O aquário ao qual me refiro não passa de uma tigela de vidro (acho que de colocar macarronada) e para evitar alguma contaminação, coberta com um cobertor de bolo branco, sabe aqueles bem baratos de loja de importados do Paraguai? Pois é esse mesmo. Para completar, o fundo foi coberto de pedras coloridas com o intuito de garantir a “veracidade” do ambiente, talvez obra de algum decorador “fashion”. Lamento informar, mas nas minhas andanças por esse mundinho nunca vi pedras coloridas com estas no mar...

Mas instruções foram deixadas e bem claras. Escritas em letras garrafais repousando ao lado do aquário são as tábuas das leis: colocar a ração (essa tem cheiro de sardinha podre), menos que uma pitada (???) duas vezes ao dia. Vocês não acreditariam como comem pouco esses peixes...Além disso, tenho que trocar a água a cada três dias, missão esta que não me agrada muito visto que da última vez, o Branco quase se foi pelo ralo da pia ao encontro do mar. E isto basta para mantê-los vivos.

Nesse habitat surreal vivem agora sob minha tutela esses dois peixinhos... O Dourado chamado dessa forma por causa da sua cor de metal precioso e talvez por saber disso descansa como um rei no fundo do pote, observando pacientemente o agitado Branco, supracitado. Tenho aqui minhas ponderações científicas e acho a inquietude do Branco típica de quem já percebeu que o mundo ultrapassa as paredes de vidro. Um lago, um rio talvez, ou um mar se fosse de água salgada.

Eu, caríssimo amigo me identifico mais com o Branco. Acho que pelo menos meu aquário poderia ser maior ou talvez que eu me perdesse na imensidão do oceano azul cor de minha alma. Quanto ao Dourado oferece menos trabalho, tudo bem, mas sua acomodação deixou-me profundamente entediado... No que ele pensa enquanto respira?

Com o passar dos dias depois de muitas trocas de água, foi crescendo em mim sentimentos nada nobres e característicos daqueles que detém o poder de fato: a prepotência e o sadismo. Eu, homem simples e de reflexão sou o deus do aquário! A vida e o destino dos dois estão nas minhas mãos. Colocar um pouco menos de comida e bye bye, adeus peixinhos!!! Ou então “esquecer” de trocar a água e vê-los perder o fôlego lentamente...

Peço calma ao leitor, pois não o farei. Se esse texto não é infantil não significa que vou transformá-lo numa carnificina dos filmes de terror e jornais da tarde. Já tomei meu remédio controlado e aqueles impulsos sumiram que foi uma beleza...

Mas minha calma se desfez ao ouvir o "blim blom". Era chegada a hora, e assim como o feriado, a estada do aquário na minha casa acabou. Minha responsabilidade diária se foi e sinto um vazio no meu peito... Sinto que estou passando mal... Uma falta de ar crescente...
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Acordei no meio da madrugada e a falta de ar continua... Passo a mão no pescoço, pois algo me incomoda, sinto uma ferida aberta, enorme...Abro a porta e me ponho a correr por instinto na direção do mar... De súbito mergulho no Porto da Barra. Respiro melhor. Meus pés viraram barbatanas e me ponho a nadar pelo Atlântico-Sul. Se for um sonho alguém me belisque, por favor, do contrário adeus às pessoas amadas. Vou à procura das pedras multicores.

Julio Lins, Salvador, 2 de junho de 2003

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

MORAL DA ESTÓRIA




Não sou contador de casos. Nunca soltei piada que alguém, ao menos, esboçasse sorriso discreto. No entanto, ao contrário do que possam pensar, não invejo os que sempre tem alguma estória engraçada, ou mesmo (e na maioria das vezes), vulgar. Aquela obrigação subliminar de fazer rir quem ouve, ao final. Sei, no entanto, relatar fatos e opinar de forma imparcial sobre o cotidiano, somente políticos e torcedores de futebol sabem fazê-lo com tamanha eficácia.

Porém, às vezes, acontece de um fato ou uma estória qualquer, aguardar pacientemente no cantinho mais obscuro dos meus pensamentos para finalmente, num acesso de fúria, se apossar de toda minha imaginação nos momentos mais impróprios.

Hoje isso aconteceu numa daquelas reuniões de trabalho utilíssimas lá na agência. Os Gerentes de Contas descrevendo seu trabalho mensal para o deleite do Gerente Geral e meus olhos lutando para permanecerem abertos... Já estava entrando em estado alfa quando me veio à lembrança, não me perguntem porque, da estória que conto a seguir e de como discordo dela quase por completo. Começa assim:

Uma mulher nem muito formosa nem pouco virtuosa, enfim uma mulher, pois as que parecem pontuar acima da média, como é sabido, somente existem na imaginação fértil de alguns ou em capas da revista “Cláudia”. Que me perdoem as leitoras, mas com os homens imagino que ocorra o mesmo e já que não sou grande observador destes, desculpem a falta de cientificismo do tipo sociológico.

Pois bem, Suzete (resolvi chamá-la assim, pois não conhecendo nenhuma homônima evito mal entendidos), orgulhosa do seu gênero, e fazendo gênero como de praxe, viajava tranqüila e conversadeira no banco do carona no novíssimo carro do seu marido. Notaram o ponteiro da gasolina indicando a necessidade urgente de um abastecimento. Ao pararem no posto, Suzete esposa de Souza (o nome simples, caro leitor, não fornece pistas da importância que adquirira na empresa), reconheceu o Silva (este nome sim, representa o grau alcançado na escala social) e o cumprimentou. Este último, por sua vez, retribuiu o cumprimento com um sorriso amarelo cor de gasolina.

Souza surpreso com o gesto, ao sair do posto, perguntou quem era o pobre coitado do sorriso amarelo. E aqui, amigos, está aquela parte da estória que somos impelidos ou quase forçados a tirar algum ensinamento para a vida. Atenção:

- Era o Silva. Ele foi meu namorado nos tempos do colégio.
Recebido o baque e com ar de superioridade contumaz, rebateu...
- Tá vendo aí? Se você tivesse se casado com ele, hoje você não teria nada...
E Suzete que nunca deixa por menos, não decepcionaria agora...
- Se eu tivesse me casado com ele, você é que seria frentista do posto...
E foram calados para casa. Moral da estória, ou pelo menos a que nos querem imputar: atrás de um grande homem existe sempre uma grande mulher.
Isto posto, permitam-me na função de cidadão exercer direito constitucional e discordar da já famosa fábula, divulgada em livros e redes de comunicação pelo mundo afora, incitando a intriga entre os gêneros. Acendendo fagulhas no paiol do orgulho.
Em primeiro lugar, a visão que primeiro me vem à mente(grande mulher) é o de uma mulher imensa, devido a obesidade mórbida, atrás de um homem franzino, desses que o vento leva e não serve nem pra jogador de futebol de botão.

Discordo também que ser um grande executivo por si só já constitua sucesso e felicidade. O Souza em questão poderia estar com três úlceras e um câncer inicial, bem como prestes a se divorciar e inimigo dos filhos que o vêem exatamente como seus subordinados o vêem: à distância e com raiva. Já Silva, possivelmente ama a esposa e é amado, leva seu filho para passear e o presenteia coisas que não se podem tocar.

E o que dizer das mulheres que em maior quantidade se apropriam dos espaços antes masculinos. Digo isso, porque as mulheres também são grandes executivas de empresas multinacionais. Como se percebe, no seu cerne, essa fábula é machista. E se há esposas e filhas nas mesas de comando, logicamente segundo a premissa, devem existir "grandes" homens apoiando-as psicologicamente.

Gostaria de aproveitar a oportunidade também para esclarecer que já existem Silvas com dinheiro e Souzas sem nenhum. Mas ainda não vi Shimiths ou Suzukis no SPC.
Finalmente quero dar um fecho do tipo bíblico. Tenho vontade faz tempo, tudo na terceira pessoa do plural:

Peço-vos, portanto, sem moral alguma, atentando apenas para o bom senso, esquecer de vez com desvirtuamentos consolidados em séculos de preconceitos. Não conteis fábulas como estas para vossos filhos. Acordai, oh! mulheres e homens. Desligai-vos das novelas e sabiamente planifiqueis o mundo novo, aprendendo com as diferenças, dessa forma, construireis igualdades. Lembrai-vos: em longo prazo todos voltaremos ao pó.

Julio Lins Salvador 18/06/2003.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

O PODRÃO E O FIM


Percebi, um tanto constrangido, a falta de respeito da minha parte com a paciência de meus amigos leitores. Quantos de vós telefonaram-me ou me escreveram e-mails com insultos disfarçados entre saudações amistosas! Perderam minutos preciosos de suas vidas e mesmo assim não descobriram o que é Podrão! Isso, realmente não se faz.


Consciente da minha falta injustificável, proponho um armistício entre nós...Eu da minha parte conto a historia sem delongas e vocês devem prometer nunca mais enviar spans (minha caixa de correio agradece) ou telefonarem depois da meia noite só para me acordar em meio ao sonho. Aposto que se eu tivesse carro o pára-brisa amanheceria em estilhaços. Posso confiar? De acordo? Tudo bem...


Estava contando, na semana passada, que descíamos discutindo, na ladeira que dá acesso à estação da Lapa (a faculdade fica na Piedade), quando nos deparamos com a visão do paraíso. Não era uma mala cheia de Euros, pois na época ainda a Europa não decidira pela união monetária.


A vista era deslumbrante: Um senhor com a idade estampada nas rugas, trabalhando compulsivamente para atender à demanda reprimida. A multidão se comprimia e feliz aguardava sua vez.


Aquele era "o" cachorro-quente. Por apenas um real, o que na época já era pouco, vinha acompanhado de refrigerante. Se quisesse sem refrigerante, para boicotar os produtores estrangeiros, economizávamos trinta centavos. Pechincha era ali mesmo.


Porém, diferentemente dos meus colegas o que mais me chamava atenção, posto que já sabia que a automação liberaria o homem do trabalho enfadonho, era a forma de colocar o cat-chup... Aquele senhor era realmente inventivo, ele mesmo fabricara, como confirmado pessoalmente, uma bomba injetora de mostarda e cat-chup. Colocada a salsicha no pão bastava bombear uma vez e saía a quantidade justa de tempero desejado em um filete uniforme. A industrialização da informalidade alavancando a produtividade... O seu atendimento, portanto era satisfatório, não se esperava muito tempo, Ninguém tinha tempo...


Aquele bem inferior cuja elasticidade renda negativa se evidenciava na inexistência de clientes de faculdades particulares, salvava a lavoura em dias de aperto. É claro, muitos negarão. Virar a face e fingir que não sabem de nada é comportamento típico dos diplomados e bem empregados economistas. Mas a verdade é uma só: O Podrão era fonte de inspiração. Queríamos um negócio igual àquele, enquanto nos enganávamos entre promessas de empregos e salários de carteira assinada (ou seria assassinada?).


Jeferson, criativo colega nosso, daqueles que restringiam sua demanda por necessidade, lançou o nome observando atentamente, um certo dia, as condições de higiene do empreendimento e a ligação estreita entre sua ingestão e conseqüentes problemas intestinais.


A partir dali, já batizado de Podrão, novas gerações de consumidores, ávidos por um tema de monografia obtiveram sua resposta. Seu fim ocorreu há uns dois anos, quando começaram as obras de reforma. A Lapa foi fechada tempo suficiente para a falência dos pequenos comerciantes instalados lá. E fim da história...


“A elite informal de Salvador: os não excluídos. Perfil e origens” foi o meu tema...Bons tempos aqueles. Serei eternamente grato pelo nove que tirei na monografia! Obrigado Podrão!


Julio Lins, Salvador 12/06/2003.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

O PODRÃO


Aquilo sim é que é um sonho de negócio. Nós, estudantes de economia, entre correntes de pensamentos divergentes e muitas vezes antagônicas professávamos uma unanimidade comovente enquanto fregueses daquele empreendimento.


É claro, aquilo era um bem inferior, destinado portanto à parcela da população com restrição orçamentária abaixo do digno, ou seja, estudantes da Federal e quase toda a população da Salvador, terra dos oportunos.


Em Salvador aliás, é sabido que a livre iniciativa é severamente tolhida como se vivêssemos num regime de exceção (que por aqui é regra). Camelôs tidos como marginais na alegação oficial de que não vendem com nota fiscal... eu me pergunto agora, ilustre e letrado soteropolitano: e quem vende? Os comerciantes com jogadas contábeis mirabolantes ou os industriais isentos de qualquer imposto, beneficiados pela guerra fiscal?


Mas o problema, ou melhor a solução de que trato aqui é o Podrão. Conto em seguida a sua história e a da criação do sugestivo nome. Íamos nós, utópicos e esperançosos, depois da aula, discutindo o assunto rotineiro de quem ainda não desistiu e sucumbiu ao futebol e à cervejinha como ópio para a acomodação menos dolorosa.


"Como ganhar dinheiro?" Coloco entre aspas esta divagação, pois até hoje fim da história, ninguém do nosso grupo descobriu a fórmula, minto, dois economistas que eram parentes de "alguém" na Administração Patrimonialista do nosso querido Estado logo logo se "arranjaram" e hoje já sabem a resposta "de cor e salteado".


De qualquer forma eles não participavam realmente do nosso grupo... só quem não era nem direita nem esquerda podia. Eles eram totalmente destros do tipo elitista e cruel.


Me lembro bem (ou lembro-me como preferem os puristas) do professor de Neoclássica insistindo que o economista é por princípio um cínico: formula teorias para justificar outras que não deram certo.


Eu diria, em defesa da minha honrada formação acadêmica, que, na verdade o ser humano é cínico. É sobretudo um cínico-míope. Desfila em carros importados e não se importa com a miséria do menino vendedor de bala no sinal até o dia que a alternativa na mente do menor seja a de usar o subterfúgio de ser um menor para se familiarizar com outros tipos de bala, vocês sabem quais.


Se vivo fosse, diria Keynes em favor dos meninos e meninas de rua: "A longo prazo todos estaremos mortos". No sentido da urgência de políticas públicas que aumentem a renda e minorem as disparidades sociais. No Brasil os cruéis e cínicos invertem esses dizeres, os expõem em luminosos e não fazemos nada a respeito: “Roubo o mais rápido possível, pois no longo prazo estarei esquiando na Europa ou tomando sol no Caribe assim como o meu dinheiro.“


Torcendo para que o inestimável leitor esteja entre os vivos mesmo a curtíssimo prazo, na próxima semana continuarei a saga da solução para a pobreza (não espiritual é claro) dos estudantes de Economia e da metade da população de Salvador. Aguardo-vos ansioso!


Julio Lins Salvador 31/05/2003

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Perdigotos


Antigamente o Parabéns no aniversário era somente o Parabéns.

hoje com a evolução dos tempos quase que triplicamos o tempo que o aniversariante fica sem graça frente à multidão:

senão vejamos:

começa com a música do Parabéns "pra" você emenda com Chegou a hora de apagar a velinha depois Que Deus lhe dê quando vc pensa que está no final vem : É pique, É pique (que os mais desatentos transformaram em é BIG é BIG...) e mais ultimamente incluíram uma canção religiosa Cristã (graças a Deus) "Fulano" será abençoado ...


Depois disso tudo a criança baba o bolo inteirinho com seus perdigotos(assoprando as velas) e o povo, cansado de esperar e de cantar, avança no bolo contaminado reduzindo-o à farelos!


um abraço! kkkk!