
Não sou contador de casos. Nunca soltei piada que alguém, ao menos, esboçasse sorriso discreto. No entanto, ao contrário do que possam pensar, não invejo os que sempre tem alguma estória engraçada, ou mesmo (e na maioria das vezes), vulgar. Aquela obrigação subliminar de fazer rir quem ouve, ao final. Sei, no entanto, relatar fatos e opinar de forma imparcial sobre o cotidiano, somente políticos e torcedores de futebol sabem fazê-lo com tamanha eficácia.
Porém, às vezes, acontece de um fato ou uma estória qualquer, aguardar pacientemente no cantinho mais obscuro dos meus pensamentos para finalmente, num acesso de fúria, se apossar de toda minha imaginação nos momentos mais impróprios.
Hoje isso aconteceu numa daquelas reuniões de trabalho utilíssimas lá na agência. Os Gerentes de Contas descrevendo seu trabalho mensal para o deleite do Gerente Geral e meus olhos lutando para permanecerem abertos... Já estava entrando em estado alfa quando me veio à lembrança, não me perguntem porque, da estória que conto a seguir e de como discordo dela quase por completo. Começa assim:
Uma mulher nem muito formosa nem pouco virtuosa, enfim uma mulher, pois as que parecem pontuar acima da média, como é sabido, somente existem na imaginação fértil de alguns ou em capas da revista “Cláudia”. Que me perdoem as leitoras, mas com os homens imagino que ocorra o mesmo e já que não sou grande observador destes, desculpem a falta de cientificismo do tipo sociológico.
Pois bem, Suzete (resolvi chamá-la assim, pois não conhecendo nenhuma homônima evito mal entendidos), orgulhosa do seu gênero, e fazendo gênero como de praxe, viajava tranqüila e conversadeira no banco do carona no novíssimo carro do seu marido. Notaram o ponteiro da gasolina indicando a necessidade urgente de um abastecimento. Ao pararem no posto, Suzete esposa de Souza (o nome simples, caro leitor, não fornece pistas da importância que adquirira na empresa), reconheceu o Silva (este nome sim, representa o grau alcançado na escala social) e o cumprimentou. Este último, por sua vez, retribuiu o cumprimento com um sorriso amarelo cor de gasolina.
Souza surpreso com o gesto, ao sair do posto, perguntou quem era o pobre coitado do sorriso amarelo. E aqui, amigos, está aquela parte da estória que somos impelidos ou quase forçados a tirar algum ensinamento para a vida. Atenção:
- Era o Silva. Ele foi meu namorado nos tempos do colégio.
Recebido o baque e com ar de superioridade contumaz, rebateu...
- Tá vendo aí? Se você tivesse se casado com ele, hoje você não teria nada...
- Tá vendo aí? Se você tivesse se casado com ele, hoje você não teria nada...
E Suzete que nunca deixa por menos, não decepcionaria agora...
- Se eu tivesse me casado com ele, você é que seria frentista do posto...
- Se eu tivesse me casado com ele, você é que seria frentista do posto...
E foram calados para casa. Moral da estória, ou pelo menos a que nos querem imputar: atrás de um grande homem existe sempre uma grande mulher.
Isto posto, permitam-me na função de cidadão exercer direito constitucional e discordar da já famosa fábula, divulgada em livros e redes de comunicação pelo mundo afora, incitando a intriga entre os gêneros. Acendendo fagulhas no paiol do orgulho.
Em primeiro lugar, a visão que primeiro me vem à mente(grande mulher) é o de uma mulher imensa, devido a obesidade mórbida, atrás de um homem franzino, desses que o vento leva e não serve nem pra jogador de futebol de botão.
Discordo também que ser um grande executivo por si só já constitua sucesso e felicidade. O Souza em questão poderia estar com três úlceras e um câncer inicial, bem como prestes a se divorciar e inimigo dos filhos que o vêem exatamente como seus subordinados o vêem: à distância e com raiva. Já Silva, possivelmente ama a esposa e é amado, leva seu filho para passear e o presenteia coisas que não se podem tocar.
E o que dizer das mulheres que em maior quantidade se apropriam dos espaços antes masculinos. Digo isso, porque as mulheres também são grandes executivas de empresas multinacionais. Como se percebe, no seu cerne, essa fábula é machista. E se há esposas e filhas nas mesas de comando, logicamente segundo a premissa, devem existir "grandes" homens apoiando-as psicologicamente.
Gostaria de aproveitar a oportunidade também para esclarecer que já existem Silvas com dinheiro e Souzas sem nenhum. Mas ainda não vi Shimiths ou Suzukis no SPC.
Finalmente quero dar um fecho do tipo bíblico. Tenho vontade faz tempo, tudo na terceira pessoa do plural:
Peço-vos, portanto, sem moral alguma, atentando apenas para o bom senso, esquecer de vez com desvirtuamentos consolidados em séculos de preconceitos. Não conteis fábulas como estas para vossos filhos. Acordai, oh! mulheres e homens. Desligai-vos das novelas e sabiamente planifiqueis o mundo novo, aprendendo com as diferenças, dessa forma, construireis igualdades. Lembrai-vos: em longo prazo todos voltaremos ao pó.
Julio Lins Salvador 18/06/2003.








