
Percebi, um tanto constrangido, a falta de respeito da minha parte com a paciência de meus amigos leitores. Quantos de vós telefonaram-me ou me escreveram e-mails com insultos disfarçados entre saudações amistosas! Perderam minutos preciosos de suas vidas e mesmo assim não descobriram o que é Podrão! Isso, realmente não se faz.
Consciente da minha falta injustificável, proponho um armistício entre nós...Eu da minha parte conto a historia sem delongas e vocês devem prometer nunca mais enviar spans (minha caixa de correio agradece) ou telefonarem depois da meia noite só para me acordar em meio ao sonho. Aposto que se eu tivesse carro o pára-brisa amanheceria em estilhaços. Posso confiar? De acordo? Tudo bem...
Estava contando, na semana passada, que descíamos discutindo, na ladeira que dá acesso à estação da Lapa (a faculdade fica na Piedade), quando nos deparamos com a visão do paraíso. Não era uma mala cheia de Euros, pois na época ainda a Europa não decidira pela união monetária.
A vista era deslumbrante: Um senhor com a idade estampada nas rugas, trabalhando compulsivamente para atender à demanda reprimida. A multidão se comprimia e feliz aguardava sua vez.
Aquele era "o" cachorro-quente. Por apenas um real, o que na época já era pouco, vinha acompanhado de refrigerante. Se quisesse sem refrigerante, para boicotar os produtores estrangeiros, economizávamos trinta centavos. Pechincha era ali mesmo.
Porém, diferentemente dos meus colegas o que mais me chamava atenção, posto que já sabia que a automação liberaria o homem do trabalho enfadonho, era a forma de colocar o cat-chup... Aquele senhor era realmente inventivo, ele mesmo fabricara, como confirmado pessoalmente, uma bomba injetora de mostarda e cat-chup. Colocada a salsicha no pão bastava bombear uma vez e saía a quantidade justa de tempero desejado em um filete uniforme. A industrialização da informalidade alavancando a produtividade... O seu atendimento, portanto era satisfatório, não se esperava muito tempo, Ninguém tinha tempo...
Aquele bem inferior cuja elasticidade renda negativa se evidenciava na inexistência de clientes de faculdades particulares, salvava a lavoura em dias de aperto. É claro, muitos negarão. Virar a face e fingir que não sabem de nada é comportamento típico dos diplomados e bem empregados economistas. Mas a verdade é uma só: O Podrão era fonte de inspiração. Queríamos um negócio igual àquele, enquanto nos enganávamos entre promessas de empregos e salários de carteira assinada (ou seria assassinada?).
Jeferson, criativo colega nosso, daqueles que restringiam sua demanda por necessidade, lançou o nome observando atentamente, um certo dia, as condições de higiene do empreendimento e a ligação estreita entre sua ingestão e conseqüentes problemas intestinais.
A partir dali, já batizado de Podrão, novas gerações de consumidores, ávidos por um tema de monografia obtiveram sua resposta. Seu fim ocorreu há uns dois anos, quando começaram as obras de reforma. A Lapa foi fechada tempo suficiente para a falência dos pequenos comerciantes instalados lá. E fim da história...
“A elite informal de Salvador: os não excluídos. Perfil e origens” foi o meu tema...Bons tempos aqueles. Serei eternamente grato pelo nove que tirei na monografia! Obrigado Podrão!
Julio Lins, Salvador 12/06/2003.