
Primeira semana de trabalho e a sensação de ter sido jogado aos leões. Leões sorridentes é claro, fingindo serem solícitos, mas como todo felino; sempre à procura de uma presa, seja ela um subordinado ou o concorrente da esquina.
Recebo a convocação para a minha primeira reunião. Olha só, já sou parte da equipe! Todos têm o dever de falar no teatro de papéis bem delimitados. Minha vontade era a de voar para longe, mas as janelas fechadas não permitiriam. A minha opinião é que essas reuniões só servem para afirmar o poder dos superiores hierárquicos (e que superioridade!). Nada de novo ou criativo.
Um jovem já de cabelos brancos teve coragem de falar parte do que pensava e de uma forma bem dissimulada, recebeu em troca olhares “fuzilantes” da gerente, que com seu dedo indicador batia na mesa (querendo furá-la talvez). Em seguida, gentilmente, expôs sua ideologia ambígua e ameaçadora:
- Estamos aqui para sermos felizes, não foi esse o nosso trato que está no mural?
Todos concordaram e fingiram sorrir. Entendido o recado, os discursos posteriores se limitaram a reafirmar que tudo estava se encaminhando para o alcance das metas, outra presa que foge no tempo.
A minha vez. Sentia-me um peixe fora d'água ou melhor... dentro de um aquário. Os vidros das janelas sempre fechadas...Disse-lhes o que sentia. Mas não pense que sou herói. O meu medo de libertar-me de vez, reduziu minhas palavras a apenas diminuir a minha importância lembrando a todos os presentes que eu era apenas um aprendiz e que não houvera tempo ainda de me adaptar.
- Não se preocupe, a vida é assim...
Disse a gerente, burocrata inútil... e continuou:
- ... no nosso acordo de trabalho está lá no mural... compromisso com a felicidade, se você não se adaptar pode ser transferido sem "poblema".
Não levei o "poblema" para o lado pessoal. Ao menos o seu dedo indicador (junto com o polegar é claro) segurava graciosamente uma caneta dourada.
Como são amistosas as recepções dessa empresa! No meu emprego anterior a minha chefa, burocrata semelhantemente inútil nos lembrava, quinzenalmente, que tinha em média cinqüenta pessoas querendo a nossa vaga. Agora, é de amplo conhecimento, são apenas quarenta e nove.
Mas, voltando ao aquário, porque não abriam aquelas malditas persianas? A todos perguntei, mentes embotadas e temerosas, respostas vagas: reflexo no monitor, luz demais, está enguiçada. Porém o que mais me comoveu foi a do distinto colega do financeiro: é que distrai. Única verdade.
Ótimo. Tudo o que precisava agora era trabalhar com escravos de si mesmos com medo da liberdade, ou pelo menos da luz do sol. A sua alma para sempre perdida num mundo de papéis e normas on-line, mutantes à disposição dos inventivos reguladores.
E eu só queria abrir aquelas janelas. Ver uma pomba pousar e descobrir que ela não tecla nem carimba, mas nem o gerente geral com todas as suas pós-graduações em finanças, jamais voou como uma delas.
Julio Lins Salvador 25/04/2003.
1 comentários:
Já tive um chefe que era semelhante à aquela personagem de "O Diabo Veste Prada". A única diferença é que no filme a chefia lá não gritava muito... Já a minha chefia. Mas eu aprendi a simplesmente não confrontar o temperamento difícil. Muito bom o título, risos.
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