
Eu sei que você está aí... não adianta disfarçar e remexer alguns papéis... o que fizeste hoje? Já sei! Não precisa nem contar. Agora eu te pergunto: Existir é só isto?
Acordou, tomou um café com pão. A mulher na televisão esclareceu que o certo seria frutas e cereais, mas você não tem tempo. Pegou seu carro e bem depois de sair da garagem colocou o cinto de segurança, arriscando sua vida e fingindo que não conhece as estatísticas de acidentes perto de casa. Irritou-se com uma ou outra fechada de alguém querendo chegar antes no trabalho, muito atrasado para coisa nenhuma.
Chegou. Bateu o ponto, sentou à sua mesa e começou a lida. Na improdutividade atarefada, parafraseando de Masi, as horas se arrastam, portanto a sua pasta de pendências que poderia ser usada para coisa melhor, é a garantia de algum trabalho durante o dia.
E que dia longo esse, não? As tarefas de rotina acabaram pela manhã, já se foi o almoço e agora é só encontrar o que não fazer pela tarde.
Todos em volta parecem (pré)ocupados, papéis nas mãos, andar apressado, passo curto, e a testa... a testa é o xis da questão. Tem que estar sempre franzida ressaltando linhas como cicatrizes de uma lobotomia, e se os olhos expressarem, juntamente com a boca, um ar de inatingibilidade da tarefa em mãos tanto mais verossímil é a cena.
Acompanhando o desenrolar da trama descobre-se que o indivíduo em questão estava indo passar um fax. Aliás fax é coisa que se poderia passar em casa ...mas aí não seria trabalho, seria? Quem determinou isto?
Três cafezinhos até agora, já ligou para todas as partições e setores compartilhando assim a sua inquietude com os colegas. Mas ninguém admite... nem você, nem os administradores muito menos os políticos, que desde que inventaram o computador e a administração científica não é necessário mais permanecer tantas horas na gaiola de vidro que costumam chamar de empresa. O pior é a estupidez de fazer companhia, nas horas extras, aos que não conseguem pensar em nada melhor para fazer ou pensar.
Enquanto arruma sua gaveta cheia de papéis recicláveis, na mesa ao lado alguém com senso produtivo mais aguçado, resolve aproveitar o tempo procurando nos classificados (e ligando às expensas da empresa moderna) em busca de um carro usado. Claro , sempre com voz baixa e tensão na testa.
Mais à frente a assistente do gerente imprime seu trabalho da faculdade com a mesma alienação, herança do taylorismo/fordismo, de um operário no início do século XX: copia e cola da internet sem ao menos conferir.
Muito tempo desperdiçado nesse teatro repetitivo e dissimulado.
Quando falta pouco menos que uma hora e começas, como um cavalo na largada, a ficar ansioso pela abertura do portão... você abre sua caixa de e-mail e lê essa crônica na esperança que lhe faça sorrir ou ao menos te traga cores em letras pretas. Doce ilusão, ela cinicamente te presenteia com um espelho de metal e vidro: símbolos de uma ideologia que se desfaz frente à realidade urgente.
Julio Lins Salvador, 25/04/2003.
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