segunda-feira, 27 de abril de 2009

O VALOR DAS COISAS


Telefonemas acordam a madrugada, notícias vestidas de roxo e preto. Luto interurbano via satélite e fibra ótica chegam imediatamente ao meu coração. “Seu tio Nael não resistiu” disse a voz entre o resoluto e o inconformado. “O enterro será pela manhã”. Flores , lágrimas e saudade.


Em meio à lembrança de seu rosto sorridente me vi pensando naquele Jipe verde ano 1950 o seu maior orgulho, além dos filhos é claro. A memória afetiva residual da nossa pouca convivência tem como ápice as idas e vindas para a roça em Buerarema. Devido às chuvas de Julho só aquele produto da guerra poderia escalar os íngremes morros nas estradas de barro cujas fendas mais pareciam vales.


Sim naquele carro antigo era possível ter acesso ao paraíso bucólico da Serra do Jequitibá. Todos nós impressionados e confiantes não poupávamos elogios, excetuando-se talvez pelo consumo exagerado de combustível (quatro litros para um quilômetro).


Inevitavelmente as chuvas e ladeiras trouxeram ferrugem e o desgaste das peças, que lentamente foram vencendo toda a robustez da carroceria bem como a força do seu motor. Não havia mecânico capaz de resolver seus problemas. Assim também somos nós e foi Nael: subimos montanhas enfrentamos tempestades e tentamos resistir ao desgaste inevitável.


Com o dinheiro da venda do Jipe, não sem sofrimento, reformou e ampliou a mercearia com o nome de sua filha Marta que muito o admirava. Fora caminhoneiro e nas suas viagens as saudades de menina eram aplacadas com os presentes que ele trazia dos recantos do Brasil e a promessa do abraço na volta. E ele sempre voltava.


Soube depois que após o enterro seus filhos almoçaram juntos ao som de Nelson Gonçalves, de quem seu pai era fã. Lembraram-se do seu violão e voz nas festas familiares. Sua voz ainda ecoa naquela casa. Alguns choraram outros cantaram juntos a despedida.


Nesse mesmo almoço, Marta tinha nas mãos vacilantes uma carta de seu pai. Ao ler um trecho da canção que ele escrevera não resistiu e chorou o choro de saudade. Recompôs-se e anunciou que a mercearia passaria a se chamar “Nael” dali em diante, uma homenagem sincera e tocante.

A letra trêmula cantava sua despedida assim: “Quando eu me for não quero choro nem vela, somente saudades e meu violão...” É que ele já tinha esquecido do seu Jipe, agradável lembrança para os seus.



Julio Lins Salvador, 18/05/2003.

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